A garota que nunca acreditou em Papai Noel

“Vi pessoas queridas morrendo e sendo atacadas pelo terrorismo o tempo todo, mas meu lugar é em Israel!”

Ela atravessou meio mundo atrás de um sonho: viver em Nova Iorque. Hoje, após 5 meses, conta os dias para ir embora, bem antes do previsto. Ela nunca acreditou em Papai Noel*, mas acreditava que, apesar das diferenças culturais e religiosas, a estonteante influência americana em seu país seria suficiente para fazê-la sentir-se em casa.

Mas não foi. O que aconteceu, então, aí no meio desse percurso? Quais são as aflições, sonhos e pensamentos de uma jovem israelense classe-média de 25 anos que aos 18, ao invés de entrar para uma faculdade, foi obrigada, assim como todos – boys and girls -, a virar soldado – guerrear de verdade – em seu país?

Yariit Yesh nasceu em Tel Aviv e é uma garota alegre, apesar das marcas da tensão em que vive sua pátria, que lhe conferem um quê de resistência – para os brasileiros: um pouco sistemática. Para os seus: festeira! Hoje, após passar pela experiência de ser Au Pair nos Estados Unidos (um país protestante cristão do novo testamento, enquanto o seu segue o velho…), assume ser israelense de corpo e alma, muito mais do que nunca. Não é que ela esteja odiando cuidar de criança (ela fica aqui até fevereiro, pois a família pediu tempo para achar outra Au Pair), mas durante sua batalha descobriu que não há terra nesse mundo como sua casa. E diz também que se decepcionou um pouco com Nova Iorque.

Por que?

“3 coisas: festas, clima e pessoas. Israel é mais quente. Não me adaptei com tanto frio. Nossas festas pra mim são melhores, as pessoas tem mais energia” – nessa hora ela pára, coloca uma música no youtube, fecha os olhos, da uma mordidinha no canto dos lábios e avisa: “Esse é o melhor e mais famoso cantor de Israel. Eyal Golan. Quando toca essa música nos clubes todo mundo canta e joga as mãos pro alto”. Depois, olha para mim, brasileira, e completa: “Sabe aquela música ‘parapapapapapapapapa'”, e eu: “Morro do Dendê é ruim de invadir…”; “Essa” – e ela começa a dançar e cantar, dizendo que trata-se de um sucesso entre os jovens de lá.

Além da música israelense mediterrânea (que leva muita influência árabe) e do Morro do Dendê (rsrs), o que mais toca nos clubes em Tel Aviv é POP music norte-americana. “Sempre me disseram que Nova Iorque era a melhor cidade do mundo, onde as pessoas são fashion e as baladas as melhores. Vim esperando uma coisa que não encontrei, apesar de ser uma cidade incrível”.

Se a presença da cultura norte-americana em seu país não ajudou na adaptação, tem uma coisa da qual ela vai sentir muita falta: Compras!!! Ahhh shopping… “Nisso aqui é disparado melhor. Amo comprar e em Israel os preços são salgados”.

Nesse dia estávamos batendo fotos e papo em frente a um castelo decorado, mas ela contava os minutos para ir ao shopping. Enquanto isso, seu olhar se perdia nos enfeites natalinos: “E pensar que em nosso país Papai Noel não passa de um personagem infantil, como qualquer outro da Disney, que existe apensas em filmes norte-americanos”…

BATE BOLA:

Objetivos quando veio: Viver o sonho americano e provavelmente ficar. Melhorar meu Inglês, viajar muito, conhecer gente e coisas novas…

Melhor da vida de Au Pair: Estar em uma família que faz de tudo para que eu me sinta confortável. É saber que não estou sozinha.

Pior da vida de Au Pair: Pouco dinheiro e viver na casa de outras pessoas – porque eu sempre me preocupo com a privacidade deles…

O melhor dos Estados Unidos: Achar tudo o que eu quero comprar por preço bom;

Muita saudade? Muita! Sinto muita falta da minha família e dos meus amigos!

Comida: A maior diferença é nossa carne. Não comemos qualquer uma, somente a preparada especialmente para os judeus. Desde a criação do animal até o modo de preparo é diferente. Até nosso Mc Donalds possui carne especial. Isso limita um pouco o que eu como fora de casa. De resto, aqui nos States aprendi a comer melhor, mais frutas e verduras, por incrível que pareça.

Família americana: São judeus, isso me ajuda a sentir em casa e poder comer carne, rsrsrs. Amo muito eles e vou sentir muita falta quando for embora…

Por que você está indo embora antes do esperado? Porque eu não estou feliz morando na casa dos outros, quero mais dinheiro, estou gastando muito mais do que eu ganho, sinto que minha vida está estagnada, sem progredir…

Objetivos após viver aqui um tempo: Viver em uma Israel segura, fazer uma faculdade, casar e ter filhos no meu país de origem. Ser feliz e viver em paz.

PAPO SÉRIO

Se você chegou até aqui, não deixe de espiar essa parte da conversa, onde Yaarit abre sua visão de mundo e expõe sua opinião sobre os conflitos e dramas vivenciados em Israel:

Como você se sentiu ao terminar o colégio e ter que servir ao exército por dois anos (homens servem por três)?

Isso atrapalhou um pouco minha escolha profissional. Fiquei perdida, tanto que não tenho faculdade até hoje. Mas também acho que com 18 anos não tinha a menor noção do que eu queria ser! Quando o ônibus foi me buscar em frente de casa chorei, pois não depende de nós, e sim de como eles precisam de nós. Mas foi uma das melhores fases da minha vida, apesar de ver pessoas queridas morrendo e ser atacada pelo terrorismo o tempo todo. Senti que eu cresci. Foi também minha primeira experiência fora de casa, mas eu dei sorte, pois podia voltar todos os finais de semana, fiz bons amigos. Muita gente não gosta. Meus dois irmãos foram antes de mim e também trazem boas recordações.

E depois disso, o que normalmente os jovens fazem de suas vidas em Israel?

Uma grande viagem. Muitos vão ao Brasil em busca de praias, festas, Rio de Janeiro, sair bastante e conhecer outros países sul-americanos. Outros tentam estudar alguma coisa.

E você veio para os Estados Unidos…

Yeaaah! Sempre foi meu sonho, desde garotinha, construir minha vida aqui. Mas hoje eu vejo que não… meu lugar é Israel. Aqui para mim agora só para férias.

Quais as principais diferenças que você enxerga entre jovens israelenses e americanos?Nós somos muito mais maduros, por causa do exército, mais estressados por causa da vida louca. Há sempre alguma coisa… Não somos calmos que nem os americanos. Eles não têm problema nenhum…

O jovem israelense está sempre com medo, em estado de alerta?

Nós costumávamos ter muito medo de sair por causa dos ataques terroristas com bombas, mas agora nossa segurança está bem melhor então esse medo não existe mais. Talvez o maior inimigo de nosso país atualmente seja o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad – * é bom lembrar que ele já negou o Holocausto em público por diversas vezes.

O que você sente em relação aos palestinos?

Nada. Apenas não gosto do Hamas, do qual os palestinos são vitimas.

Qual seria o melhor final dessa história, na sua visão?

Deixar os palestinos entrarem em nosso país livremente, desde que tenhamos certeza de que eles não nos machucariam. Não me importo que eles vão à Jerusalém tanto quanto queiram, desde que em paz conosco.

Você não concorda que eles tenham seu próprio território?

Aonde? Em Israel???

Onde poderia ser?

Em primeiro lugar eles possuem muitos locais, países árabes. Mas se quiserem ficarem onde estão, tudo bem, desde que em paz. Missão impossível. Nós ajudamos pessoas palestinas em suas casas, mas elas não entendem. Eles só querem mais e mais. Se formos dizer sim para tudo o que querem, acabaremos sem nada.

Você acredita que o povo judeu foi escolhido por Deus?

Oh sim. Deus nos escolheu para sermos o seu povo. Isso significa que nosso Deus é o único, mas nem um outro. Outra coisa de que me orgulho muito é que somos um país o qual sempre envia ajuda para salvar vidas no resto do mundo. Os judeus não são como aparecem na TV, rígidos daquele jeito. Aqueles são os ortodoxos, a minoria. A maioria é como eu, feliz, sai de sexta e sábado, mas ama seu país e respeita a religião.

Você é feliz:

Muuuuito!!!

Yaarit antes e depois de morar nos Estados Unidos:

Antes eu não pensava na vida a longo prazo. Só pensava no momento, a curto prazo. Agora sou mais amigável, cabeça aberta e amo Israel muito mais do que antes. Percebo quem são meus verdadeiros amigos e o quanto minha família me ama. Vou retribuir. Estou mais forte, estou melhor. Hoje eu sei o que eu quero para minha vida, com toda a certeza…

FOTOS: Gabriela Loschi

 * Perdoem-me se estiver chovendo no molhado, mas nunca é demais avisar o desavisado e contextualizar a matéria: Israel ainda espera o novo e verdadeiro messias, Jesus Cristo não faz parte da religião judaica e, portanto, sem Natal para eles.

Com amiga na época do exército
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3 comentários

  1. Muito interessante a entrevista, nos proporciona outra visão de mundo. Muitas coisas temos em comum, valorizar nosso país, família, amigos depois de estar longe. Outras coisas consigo entender que ela tem uma cultura, mas que para alguém que foi além, é dificil entender o pensamento, como sobre o Deus único ou achar que realmente o território de Israel lhe é destinado. Muitos palestinos sofrera, foram arrancados de suas casas e vivem de forma desumana, e os israelenses se acham dono de tudo. Mas aí é o meu ponto de vista.

    Parabéns pelo blog

    • Gostei da matéria, pois nos deixa uma visão melhor do pensamento médio, talvez da classe média judia, sobre cultura, modos de vida, etc. Acho que jovem, de uma forma ou de outra, é igual em todas as partes do mundo. Tem aspirações, desejos, gostos e tudo mais que faz parte do universo de quem está nessa fase da vida. No entanto uma coisa me intrigou. Que é o fato de nos, aqui no ocidente, recebermos noticiais somente dos politicos hegemonicos de Israel e não do cotidiano de vida de Israel. Outra coisa, é uma triste constatação, é perceber que a média de pensamento do israelita é em consonância com o que os meios de comunicação falam do povo palestino, ou seja, tudo que é vizinho de Israel é “terrorista”. Parece que eles não tem a minima sensibilidade com o povo sofredor palestino, que foram expulsos de suas terras para ser hoje Israel. Entendo o que a Vanessa diz e concordo. Digo mais, o setor mais avançado do povo palestino, inclusive muitos governantes com foi Arafat, reconhecem que hoje é preciso ter o estado de Israel e também um estado livre dos Palestinos convivendo no Oriente Médio. O problema é Israel reconhecer que “avançou o sinal”, ou seja devido algumas guerras anexou para si outros territorios e mantem uma política belicista na região. Não adianta achar que o povo palestino é refém do Hamas, pois esse partido ganhou eleições e de uma certa forma representa uma parte do povo palestino. Israel tem negociar com o Hamas com negociou com a OLP. A questão de Jerusalem é mais complexa, pois é uma cidade sagrada para os palestinos, os judeus e os cristãos. Esta na hora do povo de Israel entender mais de conjuntura externa. Eles olham somente para seus umbigos. Precisam analisar e compreender os povos de maneira cosmopolita e não somente achando que são os unicos a merecer territorios. É um discussão longa, proponho que Gabriela e outras “aur paires” continuem escrevendo para Yaarit. Para com isso “furar” a desinformação passada pela grande midia internacional, e, quem sabe mostrar para ela a necessidade de conviver com os Palestinos tendo um território soberano para eles. Quem sabe Yaarit pode, junto com outros israelenses que querem a paz, mudar o pensamento médio dos judeus. Sonhar é possivel. Shalom.

  2. Parabéns pela entrevista e parabéns pela posição firme da Yariit Yesh, a qual é uma verdadeira judia de corpo e alma. Israel é dos judeus, e queiram ou não, terão que aceitar isso. Só quem não conhece a história e o sofrimento do povo judeu é que pensa diferente ou emite opiniões sem fundamento algum.

    SHALOM UVRACHÁ!

    Yossef ben Abraham

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