Moby fala sobre trabalho, fotografia, sobre a alma…

Desde adolescente as músicas do Moby costumavam tocar minha alma. Quando veio “Porcelain”, de 99 pra 2000, não parei mais de ouvi-lo. Uma música simples, mas que eu sentia invadindo meu ego sem dó nem piedade. E foi então que passei a conhecê-lo melhor e percebi a intensidade da emoção em seu trabalho que havia começado mais de 20 anos antes. Pioneiro em levar as batidas eletrônicas ao mainstream, ele causa polêmica mesmo sem querer. Segundo Nielsen SoundScan, já foram vendidos 5 milhões de álbuns e 2 milhões de faixas digitais em sua carreira. Com levada comercial ou não, aí já é uma outra discussão, a qual ele próprio se esquiva – afinal, se o mesmo som que embalou um filme de sucesso mexeu com os sentimentos ou se aquele jingle publicitário atiçou neurônios, é porque é música. E é a música a forma de arte que mais toca minha alma, desde que eu era uma criancinha peralta de 6 anos e pegava o rádio da escola emprestado para ouvir escondida nos intervalos. Olhemos agora para a energia e deixemos a discussão em torno da indústria cultural para um outro capítulo – até porque no meio musical e especialmente nos Estados Unidos, ele é considerado músico alternativo.

Já adulta, encontrei-me com Richard Melville Hall, muito prazer Moby, no backstage de um show aqui nos Estados Unidos, pouco tempo atrás. Foi quando ele me contou que estaria lançando novo álbum em maio (o Destroyed) acompanhado de um livro com imagens clicadas pelo próprio. Apaixonada por fotografia, fiquei curiosa. O que este artista, num momento ainda mais intimista – compondo em quartos silenciosos e isolados durante a madrugada -, estaria captando sobre o mundo?

Pois somente neste fim de semana consegui ver a exposição em Nova Iorque – para quem estiver passando por aqui esse mês, as fotos estão expostas até o dia 26 de junho, na Clic Bookstore & Gallery (255 Centre Street). Folheei o livro. Gostei. Previamente avisada (por ele mesmo) de que esse novo trabalho retratava o seu encontro com o mundo, deparei-me com quartos de hotéis, aeroportos, paisagens clicadas de avião (uma delas sobrevoando o Brasil, que também apareceu com Brasília), teatros, desertos e multidões enlouquecidas em frente ao palco.

Se a era da reprodutibilidade técnica (agora digital) permitir-me uma analogia forçada, diria que Walter Benjamin ficaria quase satisfeito com imagens que por vezes se assemelham a uma pintura, cuja aura é possível de ser sentida com um olhar sensível sob a precisão.

Naquele meu encontro com o artista em pessoa, em meio ao borbulho audio-visual dos shows, notei que uma câmera fotográfica o acompanhava. “Essas fotos são tiradas durante minhas viagens, mas não é um livro de turismo convencional. Ele é uma abordagem mais formal”. Calmo, introspectivo, trabalhador, fala mansa. Uma conversa que começou por acaso e acabou virando uma entrevista completamente improvisada – a chance que o jornalista não perde. Confira um pouco do nosso bate papo. 

GABRIELA – Você tem muitas referências musicais, mistura estilos sem pudor, cresceu ouvindo e praticando do punk ao clássico…
MOBY – Bom, eu cresci ouvindo e tocando música clássica, fui tocar punk e aos poucos fui agregando outros estilos, mas hoje eu gosto de tudo. Eu amo música eletrônica, gosto de punk rock, amo música alternativa, gosto de disco, jazz. Então tenho muita sorte de não precisar escolher nada. Tenho uma liberdade muito grande para criar minhas tracks. Algumas delas são muito eletrônicas, outras são mais ambiente ou clássicas. O que eu amo é poder mexer com os diferentes tipos de sonoridades.

– Mesmo assim você criou um estilo. Como você se define?
Olha, é até engraçado, mas eu tenho uma capacidade de compor qualquer coisa independente do meu humor. Muitas vezes estou muito feliz e saem coisas super tristes do meu repertório. O contrário também é normal.

– Em várias de suas músicas sentimos um certo ar melancólico. Você é uma pessoa melancólica?
Não acho que eu seja. Minha vida emocional eu acho que é normal. Às vezes estou muito feliz, outras muito triste, outras engraçado e divertido. Às vezes muito deprimido mas acredito que isso seja apenas a normal combinação das emoções. Eu gosto de fazer músicas alegres também. As divertidas são legais. Mas na verdade, você tem razão, eu realmente gosto de fazer músicas mais intimistas, melancólicas, com um quê de tristeza, mais pessoais e emocionais. É essa a música que realmente toca a minha alma.

– Qual a sua razão de fazer música?
Eu amo música (pausa, respira e se inspira). Eu amo música mais do que qualquer outra coisa. Mas eu amo manifestações artísticas de um modo geral. Venho de uma família de artistas. Meus tios eram fotógrafos e escultores, minhas duas tias são escritoras, minha mãe pintora…

– E você também tem parentesco com Herman Melville, o autor de Moby Dick, por sinal de onde veio seu nome artístico…
Sim, é verdade! Recebi grande inspiração dessa história. Então venho desse background. Mas nada me afeta emocionalmente tanto quanto música, e essa é a minha razão. O poder emocional de comunicação que ela carrega.

– A crítica considera que o álbum Play mudou sua vida, foi seu primeiro álbum de imenso sucesso.
Eu já vinha fazendo música há muitos anos, com records de sucesso e outros não. Mas no fundo o que eu queria era continuar e quem sabe conseguir tocar mais alguém emocionalmente tanto quanto eu era tocado. O sucesso de Play foi um grande acidente, foi muito inesperado, pois ninguém apostava que aquelas faixas lentas agradariam tanto ao público da dance music. Quanto a mudar minha vida… Não sei se mudou ou não, pois minha razão de fazer música continua a mesma.

– E Wait For Me, foi outro grande ponto de virada?
Foi outro grande sucesso, mas eu procuro levar minha vida muito simples, apenas fazendo música que eu gosto. É isso o que eu faço desde que tenho 12 anos. Às vezes as pessoas ouvem minhas musicas, às vezes não. Às vezes produzo boas faixas, outras ruins. Mas meu ideal de vida é simplesmente continuar trabalhando, mesmo que você não saiba se esta fazendo algo bom, continue trabalhando e continue… assim eu tento criar as coisas em minha vida.

– Moby antes e depois do sucesso.
Bom, eu cresci muito muito pobre, eu nunca imaginei na minha vida um dia viajar, nunca esperei que um dia alguém ouvisse a minha música, aliás eu não imaginava nem que um dia eu gravaria profissionalmente uma faixa sequer. Então acho que a principal diferença é que eu antes do sucesso, quando bem jovem, nunca tinha visto o mundo. Era como se eu fosse exilado do conhecimento e do entendimento do mundo. Hoje eu sei mais sobre tudo.

– Você é reconhecido sempre?
Olha, a minha sorte é que existem um monte de caras pequenos, carecas e brancos como eu, então uma coisa que acontece muito comigo na rua é chegar uma pessoa e dizer: “Nossa você parece o Moby”. E eu digo “sim já ouvi isso” (risos).

– Alguma vez te incomodou quando algumas pessoas dizem que você é pop ou sua música comercial, por conta de trabalhos em merchandising, etc?
Bom, sabe… a única coisa que eu quero é continuar capaz de produzir músicas. Não quero me importar se a faixa vai vender ou não, se as pessoas gostam de mim ou não, se me ouvem, se eu tocarei para multidões ou para um público mais restrito. Se as pessoas irão ouvir ou não, isso nunca poderá ser a minha prioridade. O que eu quero, de verdade, é continuar trabalhando nas minhas músicas. Só isso. Eu não penso muito na parte comercial da venda, o quanto vende, se vai para filmes, TV, advertising… Tudo o que eu penso é na minha tentativa de fazer música. E talvez, se eu tiver muita sorte, alguém vai curtir.

– Conte rapidamente sobre quando você começou a discotecar em Nova Iorque, como eram as coisas, o que mudou de lá pra cá…
Isso foi na década de 80, quando o DJ tinha que tocar um pouco de tudo para sobreviver. Era maravilhoso, Nova Iorque borbulhava novidade e bons clubes. Porém, era muito difícil ser DJ naquela época, os equipamentos eram caros, a tecnologia restrita, produzia-se menos. Ao contrário, hoje, tudo está muito fácil, a pessoa com um lap top consegue produzir boas faixas de música eletrônica, em consequência se produz muito mais.

– Por que você deixou Nova Iorque mesmo?
Fui morar em Los Angeles por inúmeros motivos. Nova Iorque se tornou tão cara, mas tão cara, que muitos dos meus amigos artistas precisaram se mudar de lá.

– Tem algo a ver também com mudança de estilo de vida, como seu antigo problema com alcoolismo…
Olha, isso aconteceu na minha vida por questões de necessidade. Parar de beber foi naturalmente necessário, uma vez que não sou mais jovem (Moby tem 45 anos) e… e é isso.

– Muito obrigada pelas palavras…
Eu que agradeço, inclusive passei pelo Brasil já este ano, e no ano passado fiz um grande tour pelo país, onde toquei em Brasília, Curitiba, São Paulo… eu amo o Brasil!

Obs: No site do artista (www.moby.com) é possível ouvir o álbum completo e ainda fazer o download de uma versão orquestrada de “The Day”.

Entrevista publicada originalmente na minha coluna da House Mag (www.housemag.com.br).

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